Dei um tempo

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A relação entre minha mãe e eu nunca foi das melhores, e como tudo nessa vida, há motivos pra isso.

Ela sempre foi uma pessoa bastante “moderna”: Há 34 anos, ou seja, mais de 03 décadas atrás, já era de certa forma à frente de seu tempo pra uma mulher casada e com filho – deixou uma recém nascida de 01 mês e foi trabalhar, o dia inteiro, e ainda por cima fazendo viagens. Alguns até podem dizer que era a necessidade, mas nem era tanta assim. Na verdade, fui criada a bem dizer por empregadas, moooitas inclusive, me lembro de várias, algumas até que chegaram a me bater. Palavras de uma vizinha que me conhece desde que nasci – ” Tudo o que a Flávia adquirir é digno de parabéns – ela se criou praticamente sozinha”. Preciso dizer mais? rsrs. Claro que não é unicamente esse o motivo pelo qual considero que tive uma mãe ausente, mas por suas atitudes – ou a falta delas. Pra se ter uma idéia, por mais que eu queime a mufa não consigo me lembrar de lances de infância junto à ela – mas junto a meu pai lembro, sendo que ele também trabalhava e fazia faculdade à noite.

Após a separação, ela viveu sua vida intensamente. Viajava direto, namorava bastante, não parava em casa final de semana. Eu morava sozinha, a bem dizer. Ela só se aquietava mesmo quando arrumava alguém que fosse mais caseiro. Fora isso…Não me esqueço jde quando fiz uma plástica de redução nos seios. Era próximo ao Ano Novo, e ela não titubeou: me largou sozinha em casa, cheia de curativos, e foi passar o reveillon com amigos, no Espírito Santo. Minha sogra ficou impressionada :(  Tudo bem que eu já era adulta, mas sei lá, acho que filho é filho sempre, independente da idade.

É uma pessoa bastante individualista. Nunca quis nem foi capaz de abrir mão de absolutamente nada em função de filha ou netos, o que, é claro, é de seu total direito, mas às vezes magoa, sim. Não posso ser hipócrita de dizer que não me chateiam atitudes mesquinhas, como por exemplo me jogar  na cara o simples fato de ter tido que dar uma apressada no trânsito por causa de 01 único dia que a pedi pra buscar meus filhos na escolinha à tempo, porque eu estava atrasada. Ou não poder deixar de fazer 01 única entrega de produto pra ficar com o neto no hospital. Enfim, pequenos gestos que marcam. Negativamente. Digo essas miudices porque coisas grandes nem há o que dizer, sempre foram incogitáveis questões como olhar os netos pra mim ou ter qualquer tipo de responsabilidade total com eles, nem que fosse por 01 semana.

Depois que tive filhos, obviamente precisei dela muitas vezes; Em várias obtive um sim, mas em muitas mais obtive um não como resposta. Por não ter carro e ter um marido que trabalha nos finais de semana, tive que depender dela pra ir a alguns lugares e aceitar sem reclamar, seus horários e suas vontades. Fora suas respostas evasivas do tipo: “Ah, vou ver.” “Ah, tô pensando se quero”, ou ” Se não tiver outra coisa pra fazer, te levo”.

Durante um período, tivemos uma relação muito boa, principalmente devido à sua união com Ery, um homem fantástico e super apegado à família, que adotou a mim, ao Fernando e aos meus filhos como se da família dele fossem. Ele era do tipo que fazia questão de nossa presença nos finais de semana, desde o café da manhã. Se não chegávamos lá às 8 da matina, lá vinha ele até nossa janela chamar:” Pessoal, vem tomar caféee!!” rs. E assim ficávamos lá durante o dia inteiro, como uma família (!!). Fazíamos o almoço de domingo em sua casa, passávamos a tarde por lá, vendo TV e batendo papo. No meio de semana, ele (sempre ele! rs) fazia também questão que o lanche fosse feito lá com as crianças, pra gente se ver, bater um papo. Enfim, foi uma fase muito legal. Era ele quem buscava meus filhos na escola enquanto não tive carro, e essa função era sagrada pra ele, uma coisa incrível. Ele amava.

Mas, com o término dessa relação, tudo mudou. Na verdade, passou a ser como sempre seria, caso o Ery não tivesse feito parte de nossa vida, visto que ele foi morar com minha mãe ao mesmo tempo em que eu me casava.

Minha mãe alterou a rotina radicalmente: passou a não fazer mais café da tarde, como que dizendo: não venham pra cá me encher o saco.  Eu apareci com cara de trouxa, carregando o pão na mão, rs, e dei de cara com ela sentada na cama, fazendo seus trabalhos manuais. “Vc já fez o café?” “Não vou mais fazer café”. Tá bom. Chegava o domingo, a gente acordava com o barulho do carro dela, que saía e não dava nem tchau, como que querendo dizer: tô sumindo, não quero ficar em casa com vocês. Fora que as crianças, que adoravam ir lá, passaram a voltar pra casa rapidamente – com certeza ou eram “expulsos” ou eram tão “bem tratados” que não sentiam mais vontade de ficar.

De início, fiquei triste, me chateei um pouco. Afinal, a gente se sente bem em estar  num clima harmônico. Mas nem tudo na vida é como a gente gostaria.

Então, resolvi dar um tempo também: simplesmente não vou mais à casa dela. Não é isso que ela queria? Pois é o que vai ter. Obviamente a amo, não estou cortando relações. Só acho que não preciso mendigar amor e atenção de ninguém, principalmente de uma mãe e avó. Tudo tem que acontecer de forma natural, o que não estava ocorrendo. Estou vivendo minha vida como se ela morasse em outro Estado: cada um na sua. Aliás, pior, porque conheço pessoas cujas mães moram longe e são hiper ligadas. É uma questão de atitudes mesmo, como sempre. Passei também a, independentemente do horário em que eu esteja na rua, ligo pra escolinha e peço pelamordedeus que aguardem mais um pouco, mas não a peço mais o favor de pegá-los por causa de meus atrasos. Se tenho que sair, ou é com eles ou fico em casa. E por aí vai.

Ela já notou, e pelos comentários que me “joga”, crê que eu esteja ajindo dessa forma por causa de um namorado novo que ela arrumou, mas não é nada disso. Só não vejo necessidade em estar indo atrás de uma pessoa que prioriza a vida social e os relacionamentos amorosos à família. Cada um escreve sua história como melhor lhe convém. A minha com minha filha será bem diferente, se Deus quiser!

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  1. Ai Flá, que chato isso!! Sabe, que eu sou super “faca na bota” em questão a isso! Sei lá, mas eu, Bárbara, teria “desaparecido” a muito tempo! rs
    Também tenho uma relação meio meio com minha mãe. Ela é uma pessoa super negativa, sempre reclama de tudo, nada está bom, sempre achando que tudo vai dar errado, aí me irrito e não ligo. Fico mais de mês sem ligar, sem falar com ela, além de não querer ficar ouvindo reclamações o tempo inteiro, ela só sabe pedir dinheiro. Saco isso!
    Beijos

  2. Flávia, situação chata né?? que bom que vc conseguiu desabafar tudo isso, racionalizar desta forma. Acho que você está certa nas suas atitudes. E cada um colhe o que planta, invariavelmente.
    Tô numa situação super delicada com a minha mãe, e o que vc escreveu me emocionou, apesar dos problemas serem outros…

    beijos!!

  3. Fla, que situação complicada !
    Mas foi bom você ter conseguido usar o lado racional e buscar outras alternativas na sua vida que não te deixem mais livre dessas atitudes e desmerecimentos que te magoam. Porque quem vai sair pendendo certamente é ela, já que dessa vida só levamos as boas lembranças né ?
    Beijo grande,
    Ale

  4. Flávia, fiquei emocionada com seu depoimento.

    Sabe que até eu fiquei com saudades do Ery!

    Parece que sua mãe está sempre buscando algo fora de casa, talvez não perceba que a coisa que ela mais precisa está tão pertinho, o amor da família. É importantíssimo que a pessoa tem vida social, mas como complemento da vida familiar que precisa caminhar bem.

    Mas digo, ninguém é perfeito, algumas coisas que sua mãe diz quando você pede ajuda a minha e tenho certeza que a de muitas pessoas também diz, tipo “vou ver se posso”, “acho que posso”, talvez ao dizer isto a pessoa está querendo se valorizar um pouco ou valorizar o que ela vai fazer.

    Enfim, torço muito para que vocês consigam encontrar uma forma de relacionar que seja bacana para vocês duas.
    Beijos

  5. oi Flávia,

    não é uma coisa muito fácil de lidar, né? Eu tive uma realidade bem diferente, pq perdi minha mãe com 13 anos, e ela era um super mãezona, mãe e dona de casa em período integral. E sabe, eu também sofri por tempos, anos após sua morte, pq ela tinha morrido sem experimentar outras coisas na vida além do casamento e maternidade, e na minha cabeça, sem ser feliz. Um caso meio oposto ao seu, né? Demorou um tempo até eu perceber que ela era feliz daquele jeito, e embora eu não consiga entender, era essa a sua forma de realização.
    Eu sinceramente acho que sua mãe tem medo de “ser família”, medo de deixar a vida passar, sei lá… e acaba deixando de curtir o que a vida a deu de melhor… Mas mesmo assim, é a forma dela de buscar a felicidade. Desvirtuada, mas ainda assim, a forma dela. Eu acho que vc está agindo correto, dando um tempo, tentando se valorizar, se preservar e preservar as crianças – pq tudo isso machuca, né? Mas não se martirize, viu? Pense que é a opção dela e que vc também tem direito de optar como reagir a isso. E só.

    Sei que é fácil falar… mas eu estava aqui pensando que se a gente pensar bem, a vida coloca na vida da gente, figuras que são umas mãezonas mesmo. Eu fazia muito esse exercício, de tentar identificar pessoas que podiam me trazer um pouco de amor de mãe, mesmo que de formas bem inusitadas… e não é dava certo?
    É isso, espero ter ajudado. E se quiser conversar, estou a disposição, tá?
    bjs no coração,
    Mi

  6. Sei bem o que é isso… Minha mãe tb sempre priorizou barzinhos, cervejadas, cigarros, boemia mesmo… Minha avó (mãe dela) quem nos criou… Se tenho um pouco de dignidade, acho que é pela minha avó… Agora, ela e meu pai se separaram… Ficou pior… Ela até me liga, mas se tiver um compromisso, esqueça… Meu pai é ainda pior, liga só 1 vez no mês e fala 2 minutos e nos descarta… Minha mãe pra ajudar, ta saindo com um homem casado, pra vc ter uma idéia : (
    Eu fico sentida tb, pq não são atitudes pelo menos que eu esperava…
    Espero mesmo que sua relação com ela melhore, que vc tenha mais sucesso que eu… boa sorte aí…
    Ah!!! Tive que mudar de blog por motivos pessoais… Passa lá no novo rpa ver…
    Bjks

  7. Sei bem o que é isso… Minha mãe tb sempre priorizou barzinhos, cervejadas, cigarros, boemia mesmo… Minha avó (mãe dela) quem nos criou… Se tenho um pouco de dignidade, acho que é pela minha avó… Agora, ela e meu pai se separaram… Ficou pior… Ela até me liga, mas se tiver um compromisso, esqueça… Meu pai é ainda pior, liga só 1 vez no mês e fala 2 minutos e nos descarta… Minha mãe pra ajudar, ta saindo com um homem casado, pra vc ter uma idéia : (
    Eu fico sentida tb, pq não são atitudes pelo menos que eu esperava…
    Espero mesmo que sua relação com ela melhore, que vc tenha mais sucesso que eu… boa sorte aí…
    Ah!!! Tive que mudar de blog por motivos pessoais… Passa lá no novo rpa ver…
    Bjks
    O endereço, hehehhe
    http://barbaraguarei.wordpress.com

  8. Poxa Flavia, que chato isso. Fico triste por vc estar passando por coisas assim tão desagradáveis com sua própria mãe.
    Mas acho que o tempo é o melhor remédio nessas horas e quem sabe ela resolva pensar um pouco e melhore.
    Não guarde rancor, é ruim pra vc viu.
    Beijocas e fique bem.

  9. Vixi, Flá que dureza de relacionamento hein? Mas gostei da sua atitude. Acho que se ela sentir sua falta, os momentos de convivência serão bem melhores mesmo. Boa sorte aí amiga! bjão

  10. Oi querida! Tudo o que você disse me comoveu muito, sabe.
    Doeu em mim imagino em você.
    Apesar da minha mãe ter uma vida diferene e ser diferente da sua mãe, eu também não tenho um vínculo forte com ela ou de extrema ternura.
    Veja só como as coisas são. Minha mãe é do lar, não terminou seus estudos, casada a 32 anos, casada e infeliz, uma mãe super preocupada com os filhos, se eu respirar diferente ou falar mais baixo já pergunta se estou doente, se meu irmão burro velho sentir dor de barriga ela tem também.
    Mas nada disso a faz uma super mãe. Palavras, ferem mais do que qualquer ação. Não a vejo como amiga e isso dói.
    Não posso falar dos meus poblemas com ela, pois sei que não terei apoio ou ela irá me crucificar. Sempre me deu conselhos ruins ou não os deu quando mais precisava. Tive uma linda festa de 15 anos, onde não teve um dedo seu, casamento então muito menos, nas escolhas quem sempre estava lá era a minha vó e digo que não sei o que seria da minha vida sem ela.
    Nâo, ela não estava viajando e muito menos estudando. Má vontade para ajudar a filha a crescer mesmo.
    Também não tenho lembranças tenras dela, somente do meu pai.
    Não lembro de carinho, brincadeiras, passeios….
    Ai, ai são tantas coisas…mas também sei de uma coisa, faço e farei para a minha filha tudo o que não fez.
    Um beijo querida e só o tempo diz tudo.

  11. Euzinha de novo! Realmente é impressionante a diferença de nossas mães, mas o conteúdo ser o mesmo.
    Sabe, minha mãe teve uma vida muito difícil, principalmente quando criança, mas o que me deixa mais triste com tudo isso, foi que ela não teve coragem de virar o jogo. Tornou-se uma pessoa amarga, não gosta de festas e nem de ouvir falar, reclama de tudo e de tudo tem o que falar.
    Sabe, eu até queria que ela fosse mais saidinha. Seria a minha felicidade em vê-la estudando, passeando. O triste, é que está fazendo de sua vida um martírio e não há nada pior pra um filho ver isso.
    beijos

  12. Pôxa, Flá, fico um tempão sem aparecer, roxa de saudades de tu e chego aqui e deparo com esta situação!
    Olha, eu sou do time das “faca na bota” e talvez já tivesse me afastado antes. Mas que bom que conseguiste racionalizar tudo. Talvez teu afastamento faça tua mãe repensar suas atitudes. Ou não. Mas pelo menos vocês não ficam em conflito e as crianças não sofrem. Boa sorte. Bj.

  13. Flá, minha mineirinha amada… É triste a sua situação mas eu estou contigo e não abro.Todo mundo fazescolhas,né ??? Só espero REALMENTE que ela não se arrependa tarde demais,né ??? Vou orar por todos vcs,tá??? beijos em vc e na duplinha coisa linda!!!

  14. Nossa Flá, que situação…triste mesmo. Me coloquei no seu ligar e imagino como deve ser difícil.
    Enfim, como vc mesma disse, as pessoas tem de agir por vontade própria, não adianta forçar ou querer mudar alguém.
    Passo um probleminha com meu pai também que me magoa demais, mas já coloquei na minha cabeça que ele é assim e ponto!
    Mas Flá, vou te falar que confio que a “vida ensina”, viu? Ô se ensina! Vc vai ver…
    Aproveite tudo que vc tem de bom e tente não se magoar mais com atitudes como essas da sua mãe. Sei que é complicado, mas tudo serve como aprendizado, né?
    Bjkas

  15. Oi, Flávia,
    Há quanto tempo… Estou que nem a Dinha: faz um tempão que não vinha aqui e hoje, ao ver um comentário seu no site da Meg, resolver dar uma visitada. Fiquei também muito emocionada com o seu post. Como deve ser difícil uma ausência como essa! Tudo que envolve pai e mãe é doloroso demais, não? Espero que você fique bem.
    Beijo.

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