Arquivo mensal: abril 2008

Dei um tempo

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A relação entre minha mãe e eu nunca foi das melhores, e como tudo nessa vida, há motivos pra isso.

Ela sempre foi uma pessoa bastante “moderna”: Há 34 anos, ou seja, mais de 03 décadas atrás, já era de certa forma à frente de seu tempo pra uma mulher casada e com filho – deixou uma recém nascida de 01 mês e foi trabalhar, o dia inteiro, e ainda por cima fazendo viagens. Alguns até podem dizer que era a necessidade, mas nem era tanta assim. Na verdade, fui criada a bem dizer por empregadas, moooitas inclusive, me lembro de várias, algumas até que chegaram a me bater. Palavras de uma vizinha que me conhece desde que nasci – ” Tudo o que a Flávia adquirir é digno de parabéns – ela se criou praticamente sozinha”. Preciso dizer mais? rsrs. Claro que não é unicamente esse o motivo pelo qual considero que tive uma mãe ausente, mas por suas atitudes – ou a falta delas. Pra se ter uma idéia, por mais que eu queime a mufa não consigo me lembrar de lances de infância junto à ela – mas junto a meu pai lembro, sendo que ele também trabalhava e fazia faculdade à noite.

Após a separação, ela viveu sua vida intensamente. Viajava direto, namorava bastante, não parava em casa final de semana. Eu morava sozinha, a bem dizer. Ela só se aquietava mesmo quando arrumava alguém que fosse mais caseiro. Fora isso…Não me esqueço jde quando fiz uma plástica de redução nos seios. Era próximo ao Ano Novo, e ela não titubeou: me largou sozinha em casa, cheia de curativos, e foi passar o reveillon com amigos, no Espírito Santo. Minha sogra ficou impressionada :(  Tudo bem que eu já era adulta, mas sei lá, acho que filho é filho sempre, independente da idade.

É uma pessoa bastante individualista. Nunca quis nem foi capaz de abrir mão de absolutamente nada em função de filha ou netos, o que, é claro, é de seu total direito, mas às vezes magoa, sim. Não posso ser hipócrita de dizer que não me chateiam atitudes mesquinhas, como por exemplo me jogar  na cara o simples fato de ter tido que dar uma apressada no trânsito por causa de 01 único dia que a pedi pra buscar meus filhos na escolinha à tempo, porque eu estava atrasada. Ou não poder deixar de fazer 01 única entrega de produto pra ficar com o neto no hospital. Enfim, pequenos gestos que marcam. Negativamente. Digo essas miudices porque coisas grandes nem há o que dizer, sempre foram incogitáveis questões como olhar os netos pra mim ou ter qualquer tipo de responsabilidade total com eles, nem que fosse por 01 semana.

Depois que tive filhos, obviamente precisei dela muitas vezes; Em várias obtive um sim, mas em muitas mais obtive um não como resposta. Por não ter carro e ter um marido que trabalha nos finais de semana, tive que depender dela pra ir a alguns lugares e aceitar sem reclamar, seus horários e suas vontades. Fora suas respostas evasivas do tipo: “Ah, vou ver.” “Ah, tô pensando se quero”, ou ” Se não tiver outra coisa pra fazer, te levo”.

Durante um período, tivemos uma relação muito boa, principalmente devido à sua união com Ery, um homem fantástico e super apegado à família, que adotou a mim, ao Fernando e aos meus filhos como se da família dele fossem. Ele era do tipo que fazia questão de nossa presença nos finais de semana, desde o café da manhã. Se não chegávamos lá às 8 da matina, lá vinha ele até nossa janela chamar:” Pessoal, vem tomar caféee!!” rs. E assim ficávamos lá durante o dia inteiro, como uma família (!!). Fazíamos o almoço de domingo em sua casa, passávamos a tarde por lá, vendo TV e batendo papo. No meio de semana, ele (sempre ele! rs) fazia também questão que o lanche fosse feito lá com as crianças, pra gente se ver, bater um papo. Enfim, foi uma fase muito legal. Era ele quem buscava meus filhos na escola enquanto não tive carro, e essa função era sagrada pra ele, uma coisa incrível. Ele amava.

Mas, com o término dessa relação, tudo mudou. Na verdade, passou a ser como sempre seria, caso o Ery não tivesse feito parte de nossa vida, visto que ele foi morar com minha mãe ao mesmo tempo em que eu me casava.

Minha mãe alterou a rotina radicalmente: passou a não fazer mais café da tarde, como que dizendo: não venham pra cá me encher o saco.  Eu apareci com cara de trouxa, carregando o pão na mão, rs, e dei de cara com ela sentada na cama, fazendo seus trabalhos manuais. “Vc já fez o café?” “Não vou mais fazer café”. Tá bom. Chegava o domingo, a gente acordava com o barulho do carro dela, que saía e não dava nem tchau, como que querendo dizer: tô sumindo, não quero ficar em casa com vocês. Fora que as crianças, que adoravam ir lá, passaram a voltar pra casa rapidamente – com certeza ou eram “expulsos” ou eram tão “bem tratados” que não sentiam mais vontade de ficar.

De início, fiquei triste, me chateei um pouco. Afinal, a gente se sente bem em estar  num clima harmônico. Mas nem tudo na vida é como a gente gostaria.

Então, resolvi dar um tempo também: simplesmente não vou mais à casa dela. Não é isso que ela queria? Pois é o que vai ter. Obviamente a amo, não estou cortando relações. Só acho que não preciso mendigar amor e atenção de ninguém, principalmente de uma mãe e avó. Tudo tem que acontecer de forma natural, o que não estava ocorrendo. Estou vivendo minha vida como se ela morasse em outro Estado: cada um na sua. Aliás, pior, porque conheço pessoas cujas mães moram longe e são hiper ligadas. É uma questão de atitudes mesmo, como sempre. Passei também a, independentemente do horário em que eu esteja na rua, ligo pra escolinha e peço pelamordedeus que aguardem mais um pouco, mas não a peço mais o favor de pegá-los por causa de meus atrasos. Se tenho que sair, ou é com eles ou fico em casa. E por aí vai.

Ela já notou, e pelos comentários que me “joga”, crê que eu esteja ajindo dessa forma por causa de um namorado novo que ela arrumou, mas não é nada disso. Só não vejo necessidade em estar indo atrás de uma pessoa que prioriza a vida social e os relacionamentos amorosos à família. Cada um escreve sua história como melhor lhe convém. A minha com minha filha será bem diferente, se Deus quiser!

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